Coronel Amaral mantém o lema: "Bandido bom, é o bandido morto"
Aos 82 anos, ex-secretário de segurança pública opina sobre a violência em Alagoas
Gazetaweb – com Dulce Melo

Em entrevista exclusiva à Gazetaweb, o coronel Amaral, que se tornou um mito na segurança pública de Alagoas, fez avaliações e retrospectivas, afirmando que enxerga com tristeza a realidade da segurança pública. Aos 82 anos, ele disse divergir dos Direitos Humanos e entender que “falta pulso” para as coisas darem certo.
1 – Coronel Amaral como o senhor enxerga Alagoas, neste momento?
R: Como um Estado muito intranqüilo. Se você tivesse oportunidade de dá uma volta por dia no IML, constatava a quantidade de pessoas assassinadas. E o pior, de todas as idades.
2 – Por que tanta violência em Alagoas? De quem é a responsabilidade?
R: A responsabilidade direta pela segurança da sociedade cabe ao governador que, por sua vez, indica os seus representantes, como o Secretário de Defesa Social e outros. Não quero emitir juízo de valor, mas julgo que a segurança do Estado esteja necessitando de alguma coisa, como exemplo preparação do contingente, renovação da tropa, investimento no recurso humano, valorização.
3 – Qual era o método que o senhor usava para as coisas darem certo?
R: No meu tempo se sabia qual o real desempenho da função de secretário, que era dá segurança ao estado de Alagoas sem abusar das prerrogativas no cumprimento do seu dever. Eu não gostava de aparecer, somente de produzir.
4 – Em Alagoas, o que vemos ultimamente é uma migração enorme de criminosos. O que o senhor acha disso?
R: Posso responder pela minha época. Eles respeitavam o sistema, sabiam que o marginal, na gíria, não tinha vez, guarida no Estado de Alagoas. Podiam até tentar chegar, mas, voltavam imediatamente, era a melhor opção.
5 – E a questão da proliferação das drogas, o tráfico?
R: Enquanto secretário, não ouvia nem falar em maconha quanto mais em cocaína e crack. Não tinha nada disso. Hoje, minha filha, saio para andar no calçadão e da Pajuçara até o Hotel Jatiúca o que mais se vê são pessoas no nível médio e alto envolvidos, abertamente. Um absurdo.
6 – O que o senhor acha do sistema prisional? Por que tantas fugas?
R: Aquilo lá é uma escola de marginais. Antigamente, na penitenciária, todos os presos trabalhavam e recebiam um salário, nunca houve uma fuga durante dez anos. Os reeducandos trabalhavam na orla marítima sem ninguém tomar conta e eu dizia apenas que gostaria que não fugissem, mas se alguém optasse por isso não ficasse em Alagoas porque a repressão ia ser grande. E ninguém fugia. Posso dizer que havia uma confiança mútua. Naquela época havia fábrica de roupas e calçados que serviam para ocupar o tempo deles e a remuneração servia de fruto de reserva para quando saíssem. Em época natalina, mais de uma vez, eu, a minha senhora, filhos e a irmã Jacinta fomos ao sistema prisional e levamos pastoril e outras coisas para os presos, em troca, lembro bem, era gratificante, saíamos de lá com presentinhos confeccionados pelo público carcerário.
7 – Além de melhorar a estrutura, o que falta nas polícias Civil e Militar?
R: Falta tirar o povo dos gabinetes, das assessorias. Diga-me, para que um deputado com dois ou três seguranças? Perante a lei, um deputado é igual a qualquer José, João, ou Zé Mané.
8 – Por conta da sua postura, o senhor já recebeu ameaças ou soube que planejaram a sua morte?
R: Nunca existiu essa possibilidade. Como secretário nunca ninguém tentou me desmoralizar, quanto mais pensar em homicídio.
9 – Se recebesse o convite para ser novamente secretário, quais as exigências que faria?
R: Bom, hoje vivo em paz, da minha aposentadoria do Exército e de alugueis de algumas propriedades. Não pensei nisso, mas também não negaria um pedido desde que me dessem as condições. Primeiro queria apoio financeiro para preparar o efetivo e equipar o sistema de segurança. Depois não sofrer ingerência política e assim ter espaço para cumprir as decisões da Justiça.
10 – Qual o lema do coronel Amaral?
R: O de sempre. Bandido bom é bandido morto.
11 – E os Direitos Humanos?
R: Às vezes, desumano. No meu entendimento não tem feito nada para ajudar o secretário de defesa social. O que poderia fazer orientando como proceder em diversos casos.
12 – O caso de grande violência mais recente foi o do policial Anderson? Qual a sua concepção sobre ele?
R: Primeiro quero falar sobre o policial Anderson, que era um ser excepcional, gozava de um bom conceito moral, intelectual perante os seus pares. Os representantes dos Direitos Humanos não tiveram a coragem de manifestar apoio à sua família, ninguém quis saber como estavam o filho e a esposa, os pais, os irmãos. Em contrapartida foram visitar os criminosos para saber como estavam sendo tratados. Isso é inaceitável. Viram o semblante daquela criança que perdeu o seu ídolo, e daquela senhora tão jovem sem o seu companheiro? O que os Direitos Humanos deveriam fazer era responsabilizar o Estado pela educação daquele menino porque seu pai morreu em combate. Mas, sequer apareceram na missa. Qual o apoio das autoridades constituídas? Ele era o chefe de serviço do grupo de elite da Polícia Civil, cadê o governador que não apareceu? Se não pudesse mandasse ao menos um secretário, até mesmo para dá satisfação, dizer que estava sensibilizado e mobilizado.
13 – Coronel, como o senhor se sente ao saber que as pessoas sempre que se deparam com um ato de violência, almejam sua volta?
R: Sinto-me gratificado pelo reconhecimento. Isso é sinal de que quando fui Secretário de Estado, fui útil. E garanto a todos vocês, não me arrependo de nada do que fiz. Se tivesse oportunidade, faria tudo de novo.
13 – Para finalizar, qual o recado que o senhor gostaria de deixar para a sociedade alagoana?
R: Queria agradecer pelo respeito e dizer que gostaria de vê-la acreditando naqueles que são responsáveis por sua segurança.
Hoje em dia, mesmo com os altos índices de criminalidade, não se investe devidamente em Segurança Pública (em Alagoas) como nos tempos do Coronel Amaral. E quando algum policial fala que pelo fato do Estado não lhe dar as mínimas condições necessárias de realizar o seu trabalho, basicamente ele vai para o serviço para dormir, parece que cometeu algum crime. As pessoas abominam a mentira, mas também não gostam de quem fala a verdade. E quem vai de encontro à realidade criada por quem está na gerência da situação, realidade esta oriunda dos labirintos do descaso e das mentes poluídas das pessoas que a todo custo tentam maquiar o que há tanto nos salta aos olhos (bem como se perpetuar no poder), sofre o preço da perseguição; quando é apenas perseguição. Muita gente não aceita e não entende a pertinência das críticas dos que se engajam na busca por melhorias para a segurança pública, por que não que ouvir outra coisa que não seja as suas próprias verdades, frutos de afirmações ilusórias, a quem da realidade...
Andressa Dörliuve







